Chá e literatura

Adoro quando começo a ler um romance despretensiosamente e ele me pega.

Há um tempo, eu ganhei de presente da minha irmã um livro da escritora francesa Muriel Barbery. Só que resolvi também pegar emprestado outro livro da mesma escritora porque a história se passa em Paris, no endereço 7 rue de Grenelle. Os dois livros ficaram muito tempo encostados, lia um pouco de um e não avançava, pegava o outro, lia mais um pouco, e nada.

Até que engatei na leitura de A elegância do ouriço. Ele tem me trazido várias reflexões, entre elas uma sobre a “vida interior” e a “vida exterior”. Basicamente, há personagens que têm uma vida exterior aparentemente incrível, ocupam posições sociais de destaque, têm dinheiro, cachorros, moram em um edifício de luxo, mas são meio boçais, enquanto há outros (as protagonistas Renée e Paloma) que são pessoas aparentemente banais, mas dotadas de uma sensibilidade fina sobre vida e arte.

A outra coisa que me chamou atenção neste romance é que o chá ocupa um lugar de destaque, mas sem ser um livro sobre chá. A adolescente Paloma está a descobrir o chá de jasmim, e ela acredita que tomar chá e ler manga no café da manhã é um posicionamento contra as pessoas que leem jornal e tomam café: “a elegância e o encantamento contra a triste agressividade dos jogos de poder adultos”.

E a zeladora Renée se reúne à tarde com a amiga portuguesa Manuela para tomarem chá juntas. Manuela, uma modesta senhora, leva doces como madeleines embaladas em seda dentro de uma latinha. No meio de uma das passagens, a autora se remete a Okakura, que escreveu o o clássico O livro do chá, e fala sobre a ritualização do chá:

“Quando se torna ritual, o chá constitui o cerne da aptidão para ver a grandeza das pequenas coisas. Onde se encontra a beleza? Nas grandes coisas que, sem nada pretender, sabem incrustar no instante uma preciosa pedrinha de infinito.

O ritual do chá, essa recondução exata dos mesmos gestos e da mesma degustação, esse acesso a sensações simples, autênticas e requintadas, essa licença dada a cada um, a baixo custo, de se tornar um aristocrata do gosto, porque o chá é a bebida tanto dos ricos quanto dos pobres, o ritual do chá, portanto, tem essa virtude extraordinária de introduzir no absurdo de nossas vidas uma brecha para uma harmonia serena. Sim, o universo conspira para a vacuidade, as almas perdidas choras a beleza, a insignificância nos cerca. Então, bebamos uma xícara de chá. Faz-se o silêncio, ouve-se o vento que sopra lá fora, as folhas de outono sussurram e voam, o gato dorme sob uma luz quente. E, em cada gole, se sublima o tempo.”

Comentários

2 comentários em Chá e literatura

  1. Celia Yumiko disse:

    Erika
    Eu tb adorei esse livro que devorei num fim de semana há muitos anos. Quero reler para sentir essa magia do chá nos momentos mais simples da vida.Bjs

  2. Renata Santos disse:

    Adoro tomar um chá lendo um bom livro,vou ver se consigo esse livro pois quero muito ler ele.

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