As tigelas da Nara Isoda

Fico sempre curiosa quando me deparo com a obra artistas que de uma forma subjetiva me transporta para um diálogo interno e profundo que tenho com os chás. Não se trata de algo tão simples assim de explicar, pois não existe nenhum elemento que comprove isso. Foi o que senti quando vi a série de tigelas da Nara Isoda. Primeiro, fiquei tocada porque as tigelas são peças importantes em uma cerimônia do chá. Depois, senti nessa série uma mistura de silêncio com alegria sincera que busco também em meus trabalhos.

Fui atrás dela então, para entender um pouco mais sobre seu processo criativo.

Leia abaixo a entrevista que fiz com a Nara Isoda suas tigelas empilhadas.

Queria que você me contasse um pouco como é que surgiu a série dos chawans [tigela em japonês], se é que tem alguma história.

Consigo mapear um pouco como a coisa foi se tecendo: durante o ano de 2014 aprofundei uma pesquisa com imagens de pedras empilhadas. Começou com desenhos de montes de pedras, e depois fui desenhando pilhas de pedras sobre um corpo humano que as carregava, e depois sobre uma capivara. Capivaras carregando pedras. Fazia colagens de papeis ou desenhos a lápis. Na ocasião, uma amiga me recomendou pesquisar sobre “zen stones”, e no longo processo de pesquisa fui encontrando, além desta referência do zen, diversos artistas pelo mundo que também empilharam pedras ou outros elementos, formando torres (expressas em desenhos, fotos, objetos tridimensionais). Alguns dos artistas que encontrei: Brancusi, Gary Hume, Louise Bourgeois. Continuo desenhando pedras e acho que são formas abertas. Às vezes desenho ou pinto-as sobre tecido algodão cru. Paralelamente, no início de 2015, cheguei na figura da tigela. Talvez tenha sido em recorte ou outro de papel que a forma apareceu.

Como tem sido esse seu processo de “empilhar tigelas”? 

Sinto uma necessidade e vontade de prosseguir fazendo, repetindo, fazendo novas pilhas. Às vezes, elas ganham algumas formas junto, como plantas ou formas abstratas, mas em geral as tigelas aparecem empilhadas e vazias. É como organizar as louças na cozinha, lavamos os pratos e empilhamos.

Você tem alguma relação com chás? 

Tenho uma relação afetuosa com os chás, adoro quando há algum especial, com folhas da horta ou artesanais, mas não sou muito boa no preparo e não conheço tanto assim.

Seu jeito de desenhar, ilustrar e pintar tem ligação a alguma prática de atenção

Sim. Acho que meu jeito de viver como um todo – não só as práticas artísticas – tem relação com algumas práticas cotidianas que me são imprescindíveis: meditação, yoga, respiração, relações de cuidado, contato com a natureza. Não sei se dá pra descrever como uma coisa influi na outra, pois está tudo interligado e coexistem.

Veja outras imagens da série de tigelas da Nara Isoda.

 

 

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