chá com Caio F.

Caio Fernando Abreu é um escritor que muito alimentou algumas ausências e descobertas da minha vida nos anos de 2005 e 2006. Ele pulou da estante nesta semana por causa do título de um de seus livros: Triângulo das águas, que foi vencedor do prêmio Jabuti em 84.

Aproveitando os dias quentes, voltei a nadar no começo deste mês. Tenho nadado de costas para ver o céu. A transitoriedade de cores, das nuvens. Conseguir acompanhar o movimento de uma folha caindo da árvore. Observar a mudança de cores da água com a chuva. Parece que as águas pegam o verde das folhas e tingem a água azul de piscina. No dia em que nadei entre as chuvas veio a expressão “água entre as águas”, que me fez lembrar do título do livro de Caio.

Abri, comecei a ler. O primeiro conto “Dodecaedro”, que Caio descreve como uma possível coreografia verbal para Köln Concerts de Keith Jarrett e dedica à memória da poeta Ana Cristina César, nunca esteve entre os meus preferidos. Essa espécie de loucura baratinada me atordoa um pouco. O conto é visceral, mas também uma lavagem de alma. Gostei que o personagem Raul, já na primeira página do conto, aparece assim…

Alecrim, artemísia, absinto, boldo, manjericão, verbena, camomila: eu estava na cozinha fazendo chá de ervas do campo quando soltaram os cachorros loucos. Gostava de misturá-las assim, as ervas, um pouco ao acaso, deixando a água esquentar enquanto as macerava devagar no pote de cerâmica. Tinha começado a anoitecer, mas ninguém lembrara ainda de acender as luzes. Talvez porque ficasse tudo mais calmo, mais bonito, quase perfeito: aquela meia penumbra avermelhada, o som do piano vindo da sala, as vozes caladas, as ervas verdes sobre a madeira da mesa. Agora, horas depois, minhas mãos continuam a guardar o cheiro fresco do capim-cidró que Marília colheu pela manhã, tomando cuidado para que a lâmina afiada das folhas não lhe cortasse os dedos. Se ficar bem atento, conseguirei localizar sob as unhas remotos vestígios do perfume da hortelã, do funcho, misturados ao cheiro ardido da arruda no galhinho colocado atrás da orelha para afugentar maus espíritos.

Rindo de exorcismos, galhos, pedras, velas, incensos: os maus espíritos estão soltos, imunes aos axés, e não consigo ficar atento a mais nada além dos passos e dos uivos dos cães rondando a casa. A todo instante lembro de quando ainda estava tudo em aparente paz: as ervas sobre a mesa, a chaleira de ferro no fogo, o bule esmaltado de branco com as dozes xícaras de cores diferentes dispostas em volta. Eu acompanhava com a cabeça a música vinca da sala, ao mesmo tempo em que esmagava as ervas para jogá-las dentro do bule. Esperando a água chiar, determinava com cuidado, e para sempre, a cor da xícara de cada um de nós, colocando-as ao redor do bule.

 

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