quebrando preconceitos

Eu tinha uma cisma gigante com esses “chás de flor” –  vendidos como se fossem uma bolota (são folhas de chá verde amarradinhas junto com outras flores) que você joga na água quente para ver o desabrochar slow motion. Sendo bem sincera, eu achava um pouco nojento flores boiando na água. E sempre dava um sorriso amarelo quando as pessoas me perguntavam “você conhece aquele chá que abre como uma flor?”; eu respondia “acho lindo” e não estava mentindo.

Minha amiga Michelle me deu um de presente e fiz com as minhas sobrinhas. Realmente achei lindo, mas não achei super saboroso. Muitos desses chás vêm com flores de jasmim e acho uma combinação, embora comum, muito delicada, pois o jasmim é muito perfumado (ou muito aromatizado) e pode se sobrepor demais ao chá verde.

Por isso, quando fui na degustação de chás promovida pela Chá Yê no Espaço Kazu, dei uma tremidinha quando eles anunciaram que tinham levado o que eles chamam de “chá display”. Abri o jogo e contei que tinha preconceito contra esses chás, mas não ia deixar de experimentar. Eu costumo experimentar comidas e bebidas que não me agradam mais de uma vez (mais de duas, cinco, dez se for preciso – no começo deste ano descobri gostar de ostras, depois de muitas tentativas em que tinha comido e achado ruim). Acho legal a gente se dar chances. No caso de chás, há vários fatores que podem interferir: produtor, região, a forma como o chá foi preparado, seu humor no dia. Então fingi que nunca tinha tomado um chá de flor da minha vida nesse dia.

Eu logo me encantei com os chás ainda fechados, que não eram umas bolotas desajeitadas, mas tinham sido cuidadosamente amarrados em formatos bonitos. Fui influenciada por isso. Pensei: se eles tiveram esse cuidado todo para “embalar” o chá, devem ter tido também para produzir…

Quando os chás foram para a água, percebi que não eram monstros inchados exalando um sabor aromatizado. As folhas eram pequenas, as flores também. Fui ganhando confiança para experimentar.

O sabor do chá verde não ficou nem fraco demais (que acontece quando o chá está velho) ou muito amargo (risco que se corre quando o chá fica muito tempo na água). Eu gostei de uma das coisas que o João Campos, um dos sócios falou: “quanto melhor o chá, mais fácil de fazer, é mais difícil de errar feio”. E isso vale para os chás chineses. Não tem um chá dessa marca que eu tenha feito e ficado realmente ruim. Outra coisa que eu achei bacana: eles fizeram cerca de duas ou três infusões com o mesmo chá. É algo comum para os chás chineses, mas eu não sabia que isso também valia para os chás display.

Eu gostei muito do que tem a flor crisântemo (este da foto) e não gostei do de cravo – embora não tenha um sabor muito forte, eu não gosto de cravo com chá verde, acho que ele vai muito bem no chai indiano (feito com especiarias, chá preto e leite). Mas isso é questão de gosto pessoal. E em gosto pessoal, o que tenho mais aprendido nos últimos meses, é que ele pode mudar. Fico muito feliz toda vez que sou surpreendida por algo novo, mesmo que esse novo tenha origem no “velho”, “desgastado”, “rejeitado”. Tem um sinal de que algo se flexibilizou internamente para quebrar o olhar viciado para a vida e seus sabores.

* a foto de abertura foi cedida pela Chá Yê

Comentários

2 comentários em quebrando preconceitos

  1. Ana Lúcia Nogueira-Ramos disse:

    Erika, bom dia!!!!
    Tenho acompanhado seu blog desde que li sua entrevista pro Yoga Journal. Tenho adorado tudo o que posta e escreve.
    Me surpreendi com esta notícia, no domingo passado fui até a Talchá justamente pra comprar o branco que vc fez ótima referência e o “flower”. Meus filhos e marido acharam o máximo, não sabíamos desta variação de chá. Ainda não fizemos, estamos esperando o feriado e o bolo de banana e maçã que ele faz pra conhecermos esta linda e como sempre delicada apresentação de chá.
    Gostei das suas impressões, depois escrevo sobre as minhas.
    Gde abraço AnaLú…..Feliz Páscoa!!!!

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