Infusorina na seção de entrevista

Uma das coisas que mais sinto falta da época em que era apenas jornalista é fazer entrevistas. Decidi então compartilhar aqui breves entrevistas, conversas, mergulhos em outros mundos em que vejo que o chá ou alguns de seus aspectos é fundamental. Muita gente estranha o que faço atualmente, achando que é algo muito diferente do que eu fazia antes.

Costumo dizer que o chá é um novo jeito de fazer o que eu já fazia: encontrar pessoas.

Escolhi para abrir esta seção a Renata Acácia, da Infusorina. Conheci a Renata e seu trabalho quando nos tornamos colaboradoras da Escola de Chá Embahú, e me apaixonei pelo Hippie Chai , um dos blends que ela criou. Admiro como a Renata extrapola fórmulas prontas, reúne sensibilidade e técnica e as expressa em suas criações.

Renata, eu queria começar essa conversa fazendo uma pergunta que sempre fazem para mim. Como você começou no chá?

Acho que o chá começou em mim quando eu mais precisei dele, morava sozinha, trabalhava e estudava muito. No meu pouco tempo de fusão comigo mesma, lá estava ele, geralmente durante a noite, após a faculdade. O chá também sempre esteve nas mãos de minha mãe, de família paulista, minha mãe é consumidora fiel de chá preto, amava o Tupi, quando este ainda era comercializado enquanto morava na capital. E, por último, mas não menos importante, comecei no chá quando fui em busca da minha essência ao iniciar um processo de coaching pessoal/profissional, pois algo faltava em minha vida. Tirei primeiro um final de semana de folga e fui conhecer a hoje então, Escola de Chá Embahú, com a Yuri e de lá não parei mais.

Qual é a principal preocupação e valor da Infusorina?

Essa é uma boa pergunta. A maior preocupação da Infusorina é levar qualidade ao cliente, nossos chás são selecionados com fornecedores de confiança, com certificados de qualidade, e preocupação desde a origem (China/Japão) ao destino (nossas xícaras), além da qualidade do chá nacional Amaya que é parceiro da Infusorina desde o primeiro dia. Com isso buscamos não fugir a essência, explico: queremos levar um blend que tenha história, aromas e sabores, mas sem perder o que importa dentro dele, o chá, e fazendo que com que ele sobressaia sem perder sua história e origem. Valorizamos o respeito às origens, o caminho do chá com tudo e todos que venham junto dele. A Infusorina nasceu disso, da vontade de levar a quem tivesse interessado, toda a cultura que envolve o chá.

Como é seu processo de criação de um blend? E no que ele se difere quando é feito para um cliente?

Um pouco difícil de descrever… Atualmente, nossa linha é composta de 4 blends autorais, e cada um deles foi criado em um momento diferente da vida da Infusorina, dito isso, posso afirmar que o processo de criação de um blend Infusorina passa por vivência, lugares onde estivemos, pessoas que conhecemos, histórias que ouvimos e a necessidade de compartilhar aquilo que sentimos. Quando elaboramos um blend para um parceiro, tentamos trazer todas essas características para o case. Por exemplo o Blend Soul, para o Soul Café Blumenau (Blumenau, SC) e o Blend Koi No Yokan, para o Café Civitá (Brasília, DF) foram criados com muito diálogo, empatia, pesquisa… E com tudo isso, temos vivências, amigos, parceiros e histórias entre nós. O resultado só pode ser um blend com a mesma paixão para quem conta conosco e acredita no nosso modo de ser.

Há muitas pessoas estudando para serem sommeliers e tea blenders. No meu caso, eu crio minhas misturas intuitivamente, pois visam a prazer, consumo próprio, e não ao mercado. No seu processo, como se dá o encontro entre a técnica, sentimento e intuição?

É engraçado responder essa pergunta, porque, no começo, de tudo eu buscava muito, muito mesmo os títulos, estudos e certificados. Com o tempo aprendi que há um equilíbrio (que nós mesmos, buscamos sempre) entre esses estudos e o encontro dos três, a técnica (nem sempre advinda dos cursos em si), sentimento e intuição. Vale ressaltar que a técnica se faz sim, necessária, exige-se muito estudo, erro e acerto. Mas, veja bem, um depende do outro, não consigo, de fato, criar um blend com pura técnica. Até “poderia”, mas a minha falta de fé nele seria a receita para o fracasso. No meu processo existe um misto, e as fórmulas oscilam muito entre a porcentagem desses três ingredientes. Algo que não posso negar, entre todos os cursos, há algo que não se adquire em uma semana: experiência a troca, estas sim, vem com o tempo e com todos os momentos especiais que a Infusorina teve e tem até hoje.

Para finalizar, peço para você me contar a história por trás do Hippie Chai. Ele é um dos meus chás preferidos por diversos motivos. Um deles é que eu adoro chai, mas, ao mesmo tempo, ele não é um chai, tem uma inspiração, um vestígio de algo que vem de lá – e eu acho essa aproximação muito sutil… Além disso, acho fantástico você colocar pu erh em um blend de uma maneira muito equilibrada. Sentimos o gosto deste chá, mas ele não é predominante a ponto de se sobrepor aos outros ingredientes (e vice-versa). Como você chegou a este chá que nos transporta para outros tempos e histórias?

O Hippie Chai é meu “queridinho”. Sério! Foi minha primeira criação “brasileira” (o primeiro chá da Infusorina foi o TéAmo, criado na Argentina) e fez parte de um processo de “cura” muito grande em mim. Eu recém havia me mudado para Florianópolis, a Infusorina estava com aquele sentimento de bebê começando a engatinhar e eu havia descoberto em mim o yoga de uma maneira diferente. Embora já praticasse por alguns anos, na ilha da magia (como chamamos Floripa) conheci o hot yoga (um misto de ashtanga, com hatha e que faz lembrar o bikram yoga pois usa de sala aquecida) e ali descobri um corpo (interno) que não conhecia. Somado a isso, eu era super adepta do pu erh. Era (é) uma das minhas paixões, fazia algo despertar em mim. Comecei a tomar uma xícara de chá pu erh cerca de 30min/1hora antes das aulas e senti algo muito especial no meu corpo, uma sensação de limpeza muito grande e gratidão ao fim de cada mantra entoado. Levei algumas vezes para ser provado para amigos, mas o “sabor era muito diferente e estranho”. Logo pensei que precisaria encontrar uma maneira de levar essa conexão que eu sentia de uma forma suave e agradável ao paladar ocidental, mas sem perder a qualidade do chá, agregando ainda mais benefícios. Foi aí que entrou o gengibre, o cardamomo e o goji berry, foi perfeito! O visual me encantou e eu lembro de fazer a primeira xícara, compartilhar com meu marido e esperar a reação dele! Na época eu queria muito tirar uma foto e postar no Instagram… Ainda pensando em um nome que pudesse fazer jus à mistura, mas sem que ficasse muito restrito ao yoga, queria que o blend pudesse alcançar todos. Peguei os três budinhas que eu tinha em casa, derramei o chá na mesa… e sabia que não poderia levar um nome que não fosse chai, Hippie Chai. Com isso, pu erh, Hippie Chai e yoga fazem parte da minha vida até hoje.

E uma dúvida prática que gostaria de pedir ajuda para você. Eu adoro chai com leite, mas não consigo misturar leite com pu erh. E aí, o que você recomenda?

Confesso que pessoalmente também não misturo leite com pu erh. Eu recomendaria, dentro da nossa linha de blends, provar o Gayatri (chá preto assam com pimenta jamaica, anis estrelado e cranberry) com leite. Fica especialmente bom!

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