o zen, o chá e a Monja

Melhor que falar da Monja Coen é deixá-la falar. Deixo apenas uma breve introdução: ela entrou em minha vida em 2002, em um periodo muito tumultuado para mim. Entrei em seu templo em um fim de tarde, hora de trânsito, mundo caótico lá fora. E lá dentro, tudo parecia estar tão bem que sentia minha respiração ofegante como um insulto. Então comecei a aprender e praticar zazen. Mas como disse, vou deixar as palavras da  Monja Coen em conversa interligada à cerimônia do chá realizada pela Urasenke que aconteceu no dia 28 de maio no ateliê de Hideko Honma.

ZEN BUDISMO – CERIMÔNIA DO CHÁ – PRESENÇA ABSOLUTA

“A cerimônia do chá tem muita ligação com o Zen budismo. Ela é uma cerimônia em silêncio –  para que nós possamos ouvir melhor, sentir melhor. É o que eu chamo de presença absoluta. E quando nós estamos neste estado de presença absoluta, seja o que for que aconteça, nós somos capazes de lidar com o que quer que aconteça.”

TRANSFORMAÇÃO DO SOFRIMENTO

“Na cerimônia do chá, nós nos sentamos em seiza, no chão bem durinho, até formar calo. E forma calo no joelho, dói, incomoda. E o que a gente faz? Gaman – aguenta, fica. Porque se você fica, há uma transformação. Então todo esse espírito que nós temos na cerimônia do chá, que a gente tem no zazen – às vezes, a gente senta em zazen por muito tempo, 45 minutos é um período curto, nós fazemos retiros em que nos sentamos 16 horas por dia. Dói? Dói. A gente fica? Fica. Por quê? Porque alguma coisa dentro de nós se transforma. Então essa capacidade de suportar aquilo que parece insuportável faz uma mudança no ser humano. De nós começarmos a nos conhecer com uma intimidade incrível. Porque nós encontramos em contato com a essência do ser. E a essência do nosso ser é vazia.”

IMPERMANÊNCIA

MUSHIN (SHIN é kokoro, essência e MU é vazio, vazio de alguma coisa fixa ou permanente)

“Nós vemos que a nossa essência, a essência do ser humano, da vida é como um céu. Passam nuvens, pássaros, aviões, mas a sua essência continua vazia e inalterada praticamente. Claro que muda, uma nuvem escura muda o céu, uma nuvem clara, o sol, o dia, a noite, as estrelas. Mas ao mesmo tempo há alguma coisa que é vazia de permanência. Ele não tá sempre estrelado, não tá sempre com sol, não tá sempre nublado. Nós vamos percebendo na nossa vida que há momentos de alegria e de tristeza, de sofrimento e descobertas, e nada disso nos aprisiona – nós passamos por eles.”

COLETIVO – COMUNHÃO

“A cerimônia do chá é coletiva: a pessoa que faz está em ligação, em comunhão com quem está na sala. Isso é beleza. É uma comunhão. Tanto que, quando os missionários católicos quiseram aprender a cerimônia do chá porque eles sentem o mesmo princípio da comunhão – nós estamos comungando da mesma sala, da mesma água. E é uma coisa tão bonita porque é muito espiritual. Há uma purificação de todos os instrumentos, tudo que você vai usar, você purifica.”

POESIA E SENSIBILIDADE

“Quando comecei a aprender, minha mestra dizia: “Ouça o som do vento nos pinherais”. Não é lindo isso? É quando a água tá fervendo. O pontinho bom é som de vento no pinheiro. A gente não desenvolve muito essa sensibilidade de dar poesia para os sons, para as formas.

Honma-san tava me contando que ela pega cinzas de árvores muito antigas e ela põe dentro das xícaras de chá, das chávenas de chá, e elas viram vidro. Mas cada uma tem uma história – tem o bambu, tem a bananeira, tem o jatobá. E quem olha nem percebe, mas quem fez sabe. E nós podemos desenvolver em nós essa sensibilidade para o belo, que tá em toda a parte.”

WABI SABI – IMPERFEIÇÃO

“Sen no Rikyu fez uma salinha de quatro tatames e meio. Era bem pequena essa sala. Ele dizia: nós temos que usar objetos da natureza. É o que vai dar origem ao que a gente chama de wabi sabi –  aquilo onde falta alguma coisa é o mais belo. Nós corremos atrás da perfeição, essa perfeição é um conceito, é uma ideia –  a beleza da natureza é que às vezes falta alguma coisa e nessa falta, a gente encontra a plenitude.”

MEDITAÇÃO

“A cerimônia do chá é uma meditação que nos faz entrar em contato com tudo o que existe. Não há nada extra. Não há nada sobrando, nem nada faltando. É como é. Este é o olhar de Buda, este é o olhar sagrado. As coisas são como são. Eu me torno hábil e pronta a agir de forma adequada com a circunstância.

Comungar na sala de chá é uma coisa preciosa. É um compromisso também, compromisso que nós fazemos com as pessoas que estão partilhando conosco.”

Comentários

3 comentários em o zen, o chá e a Monja

  1. selma nunes disse:

    Olá, estou a procura de um curso sobre chás e achei este site. Pode me indicar um lugar para fazer?
    Obrigada, Selma

    • Nathalia disse:

      Olá Selma, parece que a Carla Saueressig (A Loja do Chá) sempre oferece cursos de degustação de chá. Talvez vc possa se informar na loja, que fica no Shopping Iguatemi. Eu fiz uma formação na Escuela Argentina de Té… incrível. abraço

      • admin disse:

        Oi, Nathalia! Obrigada pelo comentário/informação. Eu também tenho interesse em participar de outras degustações. Entrei no seu blog e achei muito bacana. Tive contato com o Fuganti assistindo a umas palestras na Oswald de Andrade. Obrigada por compartilhar essas trocas que você tem! Beijos, Erika

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