pura folha & aniversário

Vai dar quase um ano que estou para escrever sobre o “pura folha”.

Ia fazê-lo no começo do ano, quando voltei de Porto Alegre com um sacão de folhas de comprei no mercado municipal em um passeio com café que fiz com um amigo de longa data, o Nik, ilustrador dos mapas dos meus sonhos… É quase meio óbvio contar que escolhi essa qualidade de mate pelo nome!

Dias depois, na terceira sexta-feira de janeiro, fiz uma infusão bem suave com estas mesmas folhas e um pouco de açúcar para minha mãe. Em menos de uma semana, minha mãe faleceu.

Dona Rosa, pessoa de sentimentos muito puros no sentido mais bruto da palavra.

Mais umas semanas se passaram e uma grande amiga, a Ju Vidigal, que não consigo bem descrevê-la, nem o seu trabalho, de tão especial (ambos), me presenteou com uma pequena cuia de alumínio – receptora de… pura folha!

Tomei alguns pequenos chimarrões, mas algo não caía bem. Talvez fosse essa lembrança, não sei.

Em novembro, fui afortunada por novos significados no meu aniversário de 36 anos, no Rio de Janeiro, recebendo os amigos no Jardim Botânico.

No meio de croissants e outras viennoiseries, prosecco e amigos no Jardim Botânico, aparece outra pequena cuia de alumínio, pelas mãos do Gustavo Peres, outro querido amigo, com quem tive a oportunidade de desenvolver um dos trabalhos mais bacanas no ano passado. Além da cuia, mais pura folha, de folha mais miúda e verde, amassadinha, pura folha madrugada.

Veio o chá e veio a chuva que a Lelê ficou tentando colecionar.

E mais uma amiga…

… mais passeios, exposição, a vista do jardim da família Moreira Salles.

outros encontros, risadas, show da Adriana Calcanhoto no Circo Voador.

*

[parêntese para o jardim]

o jardim é bem simbólico na cerimônia do chá japonesa. quando uma pessoa atravessa o jardim rumo a cabana do chá, não percorre apenas um caminho, mas uma transição – do mundo externo, barulhento, mundano, para o mundo interior, silencioso, espiritual. ele pode também penetrar o ambiente de algumas salas de chá (isso acontece em muitas contemporâneas) pela vista da janela: a paisagem de dentro e a de fora se mesclam. às vezes, temos a impressão de que o jardim externo foi construído apenas para enfeitar um ambiente interno – foi esta a sensação que tive olhando pela janela do banheiro antigo do Instituo Moreira Salles.

*

Voltando, finalmente, ao chimarrão, as ervas de qualidade pura folha (80% de folhas e 20% de ramos) são do fabricante Madrugada. Fiz uma pequena comparação com as ervas que tinha comprado no mercado no ano passado, mais soltinhas, e com as de pacote, que ganhei no meu aniversário.

Apesar de já ter lavado muita cuia na minha vida, não sou a melhor conhecedora de chimarrão. Preferi tomar o mate da folha mais miúda (Madrugada), tinha um gosto mais consistente, concentrado. O pura folha soltinho (do Mercado) tem um amargo mais “disperso”, que foi logo dispensado.

Fico contente quando tomo uma bebida que desperta a sensorialidade de diversas formas. O legal do chimarrão, além da “ligadeira”, é que ele cai no estômago de um jeito que pede uma esticadinha de coluna. Pode parecer a mais pura viagem, mas acho que tudo isso me ajuda a estar mais desperta para os pensamentos, a relação com as pessoas, os mundos e as sensações.

Que seja o prenúncio de novas sensações e experiências puras.

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