xícara: solidão perto-longe

Uma das experiências mais solitárias que eu já experimentei é a de passar um tempo em um hospital. É incondicional pensar sobre a hora da morte (mesmo se ela não bate exatamente na sua porta, salvo em alguns casos) e a lembrança da vida chega a cada toque, abraço, telefonema, carinho. Ou em uma xícara de chá.

Há uma semana ocupo o posto de acompanhante no quarto 450. O procedimento, que demorou dias para ser aprovado pelo convênio, acontece agora e tudo será muito rápido: exame, repouso, alta. E foi apenas nesta manhã que descobri meu acesso livre à máquina de água quente na copa do nosso andar (depois de ter passado quatro dias “órfã” do conforto dos meus chazinhos, do meu pequeno ritual, da minha meditação).

Estou me virando com o que tenho: o pires, a xícara branca e o bule de inox do hospital e o coadorzinho japonês que tenho carregado comigo.

O glamour do Casablanca (chá verde com hortelã e chá preto com bergamota, da Mariage Frères) foi superado pelo significado simbólico dos pacotes que chegaram pelas mãos da Lúcia Monteiro. Puri percorreu Bordeaux e depois Paris na composição do presente enviado (e devidamente recebido), que vai além das folhas perfumadas e tende mais a um abraço aconchegante. E Lúcia fez outra via sacra: comprar as encomendas, juntá-las ao presente do Puri e embarcar tudo em sua mala. A bagagem extraviada durante 4 dias rendeu sacos abertos, roupas perfumadas pelas folhas de chá, um mélange especial dos diferentes blends espalhados por sua mala e nosso encontro ontem no jardim da Casa das Rosas para tomar uma soda italiana.

Taí o resultado de encontros e desencontros do dia 24 de setembro, data comemorativa das pontes e tubos invisíveis para mim e para o Puri desde 2003. Sete anos depois, vivo um novo dia intenso, de encontros, desencontros e reencontros, assim espero. O refrão se repete: solitude, proximidade e distância. Fez com que eu me lembrasse de duas listas que eu gosto muito do Livro de Cabeceira, de Sei Shonagon.

Things That Are Distant Though Near
Festivals celebrated near the Palace.
Relations between brothers, sisters, and other members of a family who do not love each other.
The zigzag path leading up to the temple at Kurama.
The last day of the Twelfth Month and the first of the First.

Things That Are Near Though Distant
Paradise.
The course of a boat.
Relations between a man and a woman.

Comentários

5 comentários em xícara: solidão perto-longe

  1. Lúcia disse:

    Que lindo, Erika! Que bom que os chás chegaram numa data especial, com tanta história. E obrigada por me ensinar, em uma outra data especial, que bons encontros com amigos especiais se transformam em momentos inesquecíveis. Sempre lembro da saída da Maison d’Amérique Latine, a caminhada até St Germain des Prés, o friozinho, o casamento que perdemos e o seu ensinamento. Beijos

  2. KIKKS disse:

    Lucia, que boa lembrança com vc a pé empurrando a bicicleta! (e ainda depois da exibição do filme da Kênya, não é bom demais?)

  3. KIKKS disse:

    Lúcia, você tem que mandar a foto do seu blend feito com os chás que caíram pela sua mala!!!

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  2. […] Presenteamos a Sofia com dois chazinhos. Um deles foi o Fleur de Geisha, do Palais des Thés, um chá verde aromatizado com perfume de flor de cerejeira. Ganhei este chá de presente da Kênya, uma grande amiga que mora em Paris e a Cassia tomou na minha casa. Quando a Cassia foi passar uns meses na França, estudando francês, me trouxe este chá de presente. O outro foi o clássico Casablanca, da Mariage Frères. […]



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