Chá na Virada Cultural

Na ocasião da Virada Cultural, estive na Japan House SP fazendo uma performance artística contemporânea inspirada na cerimônia do chá.

A grande inspiração foi a estrela de bambu que está no jardim externo ao fundo do piso térreo, do lado da biblioteca, que foi onde as performances aconteceram. A estrela foi produzida em um workshop que o artista Akio Hizume realizou com jovens e estagiários que trabalham na Japan House SP. Esta obra me transportou para Via Láctea, tema recorrente de diversos poemas tradicionais japoneses e também de um haikai do meu avô 小林 取水 Kobayashi Shusui.

Foram muitas viagens internas conectando a história do meu avô, poeta imigrante desconhecido, e a minha, performando uma releitura artística de um ritual tradicional na boca da Avenida Paulista. Foi este o sentimento que quis compartilhar com os convidados:

na via Láctea de asfalto renascem estrelas

Alguns deslocamentos ocorrem nessa performance que a diferenciam de uma cerimônia do chá tradicional. Aqui, compartilhamos as tigelas, para celebrar o fato de estarmos juntos, e os utensílios, ao final da cerimônia, são integrados ao lugar onde ficam os objetos sagrados. Os japoneses, em sua psique, fazem uma separação radical entre o que está dentro, seus sentimentos verdadeiros, e o que está fora, aquilo que é expressado para as pessoas condizendo com o que a sociedade espera de cada indivíduo. Eu, de alma brasileira, sinto as fronteiras borradas entre o dentro e o fora e transito na revelação silenciosa de alguns segredos.

Começamos às quatro da tarde, com os pés na terra, e terminamos mais de dez da noite, com o som distante do show do álbum Sambas do absurdo e a voz da Juçara Marçal vindo da Casa das Rosas no outro lado da avenida.

Coração pulsando, alma plena, corpo inspirando e expirando chá verde.

Fotos: Jennifer Glass. O primeiro kimono é assinado pela Japonique, e o segundo (azul) é o kimono Oricla, premiado pelo Museu da Casa Brasileira por utilizar a técnica de upcycling reutilizando tiras de tecido, uma parceria feliz entre Japonique e Comas. As cerâmicas utilizadas são das artesãs Hideko Honma e Iweth Kusano.

 

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