Chá, folha de ginkgo biloba e início da vida

Tenho uma amiga, a Tânia Martins Costa (que tem sido uma mestra em assuntos de experiência de vida e cultivo do espírito, generosa com todo seu conhecimento sobre plantas e aromas), que vira e mexe envia uns vídeos legais para mim. Hoje decidi abrir este aqui (clique aqui para ver o vídeo), que fala sobre o último grande jardineiro de Alepo (norte da Síria, uma das áreas mais afetadas pela guerra civil). Abu Ward conta como o seu cuidado com as plantas pode dar sentido à vida em uma zona de batalha. Um senhor que encara o som de bombardeios como “música de Beethoven”, pois não há outro jeito.

Fiquei pensando no quanto um jardim pode ser transgressor por trazer a vida em um contexto de violência, guerra, morte. E isso me levou para a folha de ginkgo biloba, que é um dos símbolos da prefeitura de Tóquio, mas também da escola do estilo Urasenke de cerimônia do chá. Aprendi que a folha de ginkgo biloba simboliza perseverança, uma das características mais importantes quando estamos no aprendizado da cerimônia do chá (e de qualquer arte tradicional japonesa).

 

Só fui conhecer a primeira árvore de gingko ao vivo em 2014, quando me mudei para Lisboa. Três árvores cruzavam meu caminho todos os dias, na esquina da rua da Vitória com a rua dos Douradores, além de uma frase do Fernando Pessoa, escrita por seu heterônimo Bernardo Soares no Livro do Desassossego.

“Serei sempre da rua dos Douradores, como a humanidade inteira”.

Em uma manhã fria e muito ensolarada em 2015, minha rotina foi interrompida pelas primeiras folhas que brotavam de seus galhos secos. Fim do inverno, foi o que senti-entendi-pensei. Minha experiência europeia de quando morei em Paris só havia me ensinado a euforia do início da primavera, quando tudo está florido. Mas o que antecede isso, o início da vida, só fui descobrir em Lisboa.

E então compreendi o que até então só sabia em teoria, de ler que esta planta foi a única a sobreviver à radiação, tendo sido a primeira a brotar no solo de Hiroshima depois do bombardeio de 1945.

Passar pelo vídeo e pelas fotos de Lisboa foi fundamental depois da noite de ontem, em que milhares de cidadãos paulistanos foram atacados pela PM no final de uma manifestação tinha sido pacífica do início ao fim. Tivemos que sair correndo de repente, fugindo da tropa de choque, de bombas de gás lacrimogêneo, da violência e da repressão.

Tenho aprendido a respeitar escolhas diferentes, pois cada um pode cuidar de um pedaço, assim espero. Cuidar de um jardim pode ser transgressor, tanto quanto não fechar os olhos para o encontro de si, do(s) mundo (s), para o que cada um considera realidade.

Respiro resistir, perseverar, sobreviver, brotar nesse cenário de galhos secos;

ter liberdade de expressão, cuidar do jardim, tomar chá, andar nas ruas sem medo,

cultivar a vida, estar viva.

Comentários

Um comentário em Chá, folha de ginkgo biloba e início da vida

  1. tania disse:

    Erika querida, é tocante como tua sensibilidade flui à medida em que você respira, resiste, vive. Como se cada semente te chegasse com o vento, e todas as bênçãos, tornando teu solo rico de novo e de novo. Como você, os jardineiros tem força e fé, minha amada.

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