chá na praia

Não lembro bem como essa história de gravar um clipe para o ailaika começou e quando. Conheço a Susana dos anos 90, quando a gente cursava Jornalismo na USP. Há uns anos, soube por uma amiga em comum que ela estava cantando, chegamos até a combinar de ir a um show, mas não rolou por algum motivo. Então nos reencontramos em uma festa no ano passado. Entre um cigarro e outro, falamos da vida, de música e de chás.

A Su passou uma temporada na Espanha com o Zé Ruivo, seu marido e parceiro musical e, em curta passagem pelo Brasil, decidiu gravar alguns clipes do álbum An age of love. Ela me mandou uma das faixas, Early Morning, e perguntou o que eu achava. Algo na cabeça dela dizia que essa música conversava com chá e se eu topava conversar com ela sobre isso.

Foram alguns desencontros até finalmente conseguirmos um café na Casa das Rosas. De novo falamos da vida, de música e de chás. Eu só tinha minhas experiências, alguns objetos, um kimono lilás e uma imagem de kimono arrastando na areia. Dessa conversa surgiram outras, com o Kore, da Totem Filmes e, em uma semana,  tínhamos um roteiro e as imagens para o primeiro clipe do ailaika. Passei uma semana com Early Morning en boucle.

A previsão do final de semana era de chuva e o caminho para a locação estava praticamente interditado. Saímos de São Paulo na madrugada do feriado de aniversário da cidade de e chegamos na praia com o dia amanhecendo. Optamos por trabalhar em outra praia, surpreendentemente vazia em pleno feriado prolongado. Foram duas manhãs de trabalho intenso (mas divertido).

Na bagagem, levei minhas armas de luta, o bule de chá japonês herança de família, outros objetos para fazer uma cerimônia do chá e os incensos da missa de 49 dias da morte da minha mãe. Tinha se passado exatamente um ano desde seu falecimento e achei que a melhor forma de honrá-la era passar esse dia fazendo algo em que realmente acredito. E assim foi.

A Susana deve ter seu olhar próprio e outras descobertas, assim como o Zé e o Kore. Eu só posso contar a minha história de me mesclar na viagem de uma amiga, da sensação do suor do corpo sob o kimono, dos grãos de areia e do meu sentimento em relação a esse encontro único. De meditar longos minutos olhando para o movimento das águas e colocar toda a minha vida em alguns gestos de luta e de serenidade.

O resto vem do olhar do Kore…

 

Detalhe 1: a chuva só veio uma hora depois de terminarmos a gravação.

Detalhe 2: An age of love foi eleito como um dos melhores álbuns nacionais de 2012

Mais uma coisa: a maioria das fotos são do Emiliano Kore, talentosíssimo diretor!

Comentários

3 comentários em chá na praia

  1. su disse:

    <3
    também não lembro exatamente quando e como nasceu a ideia.
    mas, quando veio, eu senti que tinha que ser aquilo.
    o chá como portal.
    quando a erika me falou de wabi-sabi e outras tantas sabedorias, eu entrei em choque. como num reencontro com raízes recônditas filhas-mãe.

    somos descendentes da terradosolnascente (eu sou mestiça) e o sentimento em relação ao chá, embora, tenho certeza, único para cada uma de nós, tem um eco familiar, ao mesmo tempo remoto e quente, vago e no entanto muito, muito vivo.

    a contemplação daquele lindo amanhecer com o chá e a cumplicidade de seres especiais – erika, kore, zémeuamor – foi inesquecível. e que se vá o amanhecer com as ondas, e que renasça a cada chá. e a cada vez que eu ouvir ou cantar ou ver o clipe-em-nascimento de *early morning*.

    gratidão.
    amor.
    silêncio.

    suu

  2. Claire disse:

    lindas sinergias e sintônias, no aguardo de ver o resultado que promete ser muito bonito – tanto quanto a faixa!

Deixa um comentário