chá verde raro

O matcha é um chá verde especial: as folhas são trituradas e viram um pó fino, como talco, meio verde fluorescente. Ele é feito a partir de folhas que são cultivadas protegidas do raio de sol por malhas de palha. Os arbustos são cobertos para evitar luz do sol direta, retardando o crescimento das folhas e fazendo com elas produzam mais aminoácidos – por isso, ele é levemente doce.

É utilizado tanto na cerimônia do chá quanto na culinária. Ele foi cruzando minha vida como ingrediente de doces: sorvete, bolo pão de ló (bem fofinho) macarron (delicioso!)… Nessas experimentações de cozinha, comecei a tomar em casa, feito com o matchá usado na culinária, que não tem um sabor super extraordinário, mas é um ótimo quebra galho. Disso surgiram alguns posts sobre matcha latte aqui no blog.

Eu já tinha tomado matcha em 1997, quando conheci a cerimônia do chá, mas em 2011, na minha primeira aula de cerimônia do chá na Casa de Cultura Japonesa da USP, tomei novamente, como se fosse a primeira vez. Lá, a bebida é preparada com um chá japonês de excelente qualidade e misturado com um batedor de chá japonês (é um batedor de bambu, cortado em 80 ou 120 fiozinhos, que se chama chasen e que, de longe, lembra um pincel de misturar creme de barbear). Faz toda a diferença! Eu sou adepta ao freestyle, pois acredito que a intuição pode nos levar para lugares fantásticos, mas quando intuição e técnica se juntam, tudo pode ficar mais gostoso.

Não é em todo lugar que serve matcha no Brasil – em São Paulo, tem o Bistrô Ó-Chá, que fica na Vila Madalena (está fechado, em reforma, mudando de endereço, mas deve reabrir em algum momento). Por ser um chá mais raro, meus amigos sempre vêm me contar quando tomam um matchá. Há meses, o Xavier, amigo de faculdade veio com essa história. Eu tinha uma latinha na Mariage Frères (40g me custaram 30 euros), que comprei em Paris, e prometi fazer um matchá para ele. Tempo se passou. Foi um encontro ao acaso com a Lu, com uma colega com quem trabalhei na Editora Abril, que me levou a marcar um almoço na Mercearia Wa, da Grace, que fica em Pinheiros. Minha história com a Grace é antiga também. Todo mundo sempre me falava dela e de sua mercearia, mas eu nunca encontrava tempo para ir. Até que um dia fui com outra amiga muito querida, a Regiane, e lá, senti o tempo de uma forma diferente…

A Mercearia Wa fica na casa da Grace, que morou durante anos no Japão e lá praticou cerimônia do chá por anos. Eu tenho um leve palpite que todo o capricho do espaço dela, escolha dos produtos que vende, arrumação da loja etc. tem esta origem. Ela faz uma curadoria de produtos deliciosos – chá, biscoitos, geleias, pimentas, goiabada, manteiga, coisinhas para casa e para dar de presente – e tem um atendimento carinhoso: qualquer pessoa que entra na loja é recebida com uma xícara de chá, quente ou gelado, dependendo da estação!

Toda vez que vou lá, penso na minha mãe. Ela adoraria ter conhecido o lugar, a Grace e a Juju, sua mãe, além dos clientes que passeiam e conversam.

Queria levar a Lu para conhecer a Mercearia Wa, aproveitei para chamar o Xavier convidando-o para tomar um matcha. Tinha comentado por cima com a Grace. Levei todos os meus apetrechos e chegando lá, me deparei com uma mesinha no jardim com todos os utensílios da cerimônia do chá. E a presença do João Campos, da Cha Yê, que foi degustar o chá verde japonês com a gente!

Depois de almoçarmos um bentô (marmita japonesa, mas esta feita pelo Espaço Kazu) com salmão, acompanhado de um chazinho gelado defumado – o Lapsang Souchong, da safra de 2012 da Cha Yê* – preparado pela Grace, iniciamos os trabalhos para o chá. Degustamos o matchá da Mariage Frères e também um outro, trazido pela Michiko Okano do Japão – ambos produzido em Uji, em Kyoto, conhecida por produzir um bom matcha. O chá da Michiko foi de longe o mais gostoso. Usamos para preparar chá fraco e chá forte, que tomamos com outros amigos que estavam lá. Depois de todo o ritual, que durou cerca de 1 hora (com nenhum cliente chegando – incrível!), nos demos conta que era dia de ação de graças.

MODO DE PREPARO: duas medidas de matcha feita com uma colher especial de bambu (chamada chashaku) usada na cerimônia do chá (cerca de 1,8g), com meia concha de água a 80º C (60 ml). Para melhor resultado, use um batedor de bambu (chasen), que pode ser encontrado em algumas lojinhas japonesas.

(a Mercearia WA fica na Rua Alves Guimarães, 286, em Pinheiros, e abre de segunda à sábado até por volta de 15h)

PS: as lindas fotos são da Regiane Ishii, João Campos e Xavier Bartaburu – obrigada!

* harmonização mais do que recomendada: chá defumado com salmão…

Comentários

2 comentários em chá verde raro

  1. Rosi Deamo disse:

    Gostaria de saber quando vai haver outro workshop no Bistro Ó-Chá.
    Grata.

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