theière

Em 2006, uma das primeiras palavras que aprendi em francês foi theière, que significa “chaleira”. Foi na cozinha meio vazia de um apartamento branco em construção. Naquele lugar, eu sempre sentia um vento gelado entrando pela janela nas madrugadas, além do silêncio apenas quebrado pelo som da água fervendo.

Foi neste ano que me mudei para Paris e havia levado comigo minha chaleira de estimação de São Paulo. Sempre a carregava na bolsa quando decidia fazer chá para amigos.

(o Kiki’s Delivery Service já existia desde então e não tinha nem nome…)

 

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Um dos momentos mais emocionantes das minhas férias, agora em maio, foi este reencontro. Minha theière mora no negativo do apartamento branco e tem cor de memória. Seu metal amarelado tem cheiro de vida e de chá verde japonês, com ideogramas indecifráveis em sua embalagem e origem desconhecida (juro que tentei me informar para poder escrever este post, mas não consegui).

 

Meu primeiro reencontro com minha chaleira tinha gosto de banchá e cheiro de avelã, resquícios de suor do primeiro sábado quente da temporada e não tinha vento frio entrando pela janela.

 

 

Na casa onde minha theière mora eu tenho a impressão de ser sempre verão.

É o lugar que guarda todos os livros que trazem referências do mundo invisível.

Suas chávenas de cerâmica fina trazem para as mãos o calor da intenção

e da saudade do que não foi concretizado. Como num filme de  Kar Wai.

 

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