gyokuro: o chá das visitas

Hoje fizemos um grande almoço para comemorar o lançamento do quadrinho O Astronauta ou Livre Associação de Um Homem no Espaço (publicado pela Zarabatana Books), que aconteceu na última quinta-feira na Livraria Cultura.

Logo de manhã , eu, Saiki e Flavio (dois dos autores da HQ) nos aventuramos no Ceasa para comprar cogumelos e verduras para o nosso sukiyaki

Depois de Saiki, Flavio, Olavo e Lourenço (além das respectivas namoradas e esposas, categoria em que me incluo) terem compartilhado o processo de criação  que durou cerca de cinco anos anos (eu acompanhei apenas os dois últimos), decidimos compartilhar a mesma panela literalmente e a mesma garrafa de saquê. Vale uma observação aqui: linda garrafa (da linha Beauty Series da Kagiya, com rótulo desenhado por novos designers, é a da direita na foto abaixo) e sabor premium. A dica foi do Marcelo, um dos proprietários da Japonique, onde compramos a bebida importada pela Yamato Comercial.

Na hora da sobremesa, corri para prepara o chá… E finalmente consegui superar a experiência FAIL de três semanas atrás. Escolhemos o gyokuro (“gota de orvalho”), chá verde japonês de altíssima qualidade. No Japão, as pessoas tomam sencha no dia a dia e oferecem gyokuro para as visitas. O que mais me encanta nele, além de seu sabor e aroma adocicados (que dispensam adição de açúcar, a não ser para quem ache o chá amargo) e menos adstringente em comparacão a outros chás verdes, é a maneira como ele é cultivado. E acho que é isso que o torna tão especial e faz com que os japoneses os ofereçam a convidados. O processo é mais importante do que a finalidade ou o resultado.

Durante três semanas na primavera, os arbustos de camellia sinensis utilizadas para fazer o gyokuro são cobertos com uma tela fina durante o dia para serem protegidos do sol – a planta fabrica mais clorofila e menos tanino, fazendo de seu sabor mais suave. As folhas são colhidas ainda pequenas e enroladas manualmente. O chá tem uma coloração verde intensa e é mais “fininho”.

Depois que todo mundo foi embora, fiquei feliz não apenas com o nosso almoço, a companhia, conversas e risadas, mas com o fato de ter conseguido preparar o gyokuro adequadamente para seis pessoas ao mesmo tempo* (eu, Saiki, Olavo, Nara, Lourenço e Lucimar… o Flavio teve que ir embora mais cedo)! Todo mundo tomou o mesmo chá na mesma temperatura, alguns com e outros sem açúcar. E ainda fiz outro paralelo, entre a produção do chá e do Astronauta, ambos com muitas etapas.

Tudo começou quando o fotógrafo Flavio Moraes e o artista plástico Fernando Saiki iniciaram um projeto e fizeram uma HQ que usava a fotografia como base do desenho. Flavio decidiu aprofundar esta pesquisa em seu TCC, pediu uma força para o Lourenço Mutarelli e Gualberto Costa e, junto com Saiki, Flavio realizou a segunda HQ utilizando a mesma técnica (mais afinada), que foi apresentada à banca de TCC. O terceiro projeto deles (que resultou no Astronauta) foi se sofisticando: Lourenço escreveu um texto que inspirou um roteiro feito por Flavio e Saiki (transformado em storyboard pelo Saiki) que foi fotografado por Flavio (com produção deles mesmos que se enfurnaram durante 3 dias no apartamento de Lourenço para fotografá-lo interpretando o protagonista de sua própria história) e desenhado por Saiki e Olavo Costa (a produção dos desenhos, feitos a bico de pena um a um, durou 5 anos) para depois receber o texto final de Lourenço.

O que acho mais fantástico neste trabalho é que cada quadro tem o trabalho dos 4 autores e a consistência do processo de criação e produção (esqueci de citar o excelente trabalho do editor Claudio Martini, fundamental na etapa final do trabalho).

Arrisco dizer que o Astronauta é um gyokuro dos quadrinhos.

Ia finalizar dedicando este  post para Flavio e Fabi (namorada do Flavio que não esteve presente no almoço porque estava trabalhando), que  não tomaram o chá, e convidando os dois para tomar um gyokuro aqui em casa. Mas, felizmente, o interfone acaba de tocar e eles estão subindo.

oyassuminasai

* TEMPERATURA DA ÁGUA: de 50° a 60 °C  * MEDIDA: mais de 1 colher-medidor * TEMPO DE INFUSÃO: 3 a 4 minutos *

(eu diluí 5 ½ colheres medida d’A Loja do Chá em 1 litro de água durante cerca de 1 minuto e meio, e, com preguiça de consultar a tabela, usei a água a 70°C – não mandei muito bem, pois os amigos tiveram que esperar a bebida esfriar um pouco – prometo ser mais atenta da próxima vez).

 

Comentários

Um comentário em gyokuro: o chá das visitas

  1. ju lopes disse:

    que delícia de blog, amiga!

    arrasa!!!!!!

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  1. […] japonês de alta qualidade. Ele tem um sabor acentuado, mas suave e levemente adocidado. Merece um post […]



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